Os múltiplos olhares do cinema camaleônico de Andrea Tonacci
Curadoria e textos de Marcelo Ikeda
Um cinema camaleônico
Quarenta anos após sua estréia no cinema, com a realização do curta “Olho Por Olho”, Andrea Tonacci acaba de finalizar seu segundo longa-metragem de ficção, o esperado “Serras da Desordem”. Este, então, torna-se momento mais que oportuno para a realização de uma retrospectiva da obra desse diretor italiano-paulista-brasileiro que continua sendo pouco visto e ainda menos compreendido.
Depois da positiva recepção do mitológico “Bang Bang”, Tonacci teve que esperar mais de trinta anos para ter a oportunidade de rodar um novo filme de ficção. Mas nesse intervalo o diretor nunca se manteve inativo e, como um camaleão que muda de cor para sobreviver às ameaças de seu habitat natural (e a megalópole do pequeno cinema brasileiro é muitas vezes mais árida do que a caatinga plena), foi buscar alternativas para o prosseguimento de seu projeto de cinema, fugindo dos estereótipos do “cineasta marginal” que tanto o perseguem desde a estréia de “Bang Bang”. O filme passou a ser a coroação e o martírio de Tonacci, desde então. Porque se de um lado marcava a presença do diretor na história do cinema brasileiro, por outro, Tonacci passava a ser um autor à sombra de sua obra. Estigmatizado pelo impacto do filme, Tonacci passava a ser “o autor de Bang Bang”, ao invés de simplesmente ser “autor”.
À margem dos marginais, Tonacci foi buscar alento no contato com o outro. Refugiou-se primeiro no exterior, entre o Irã e a França, onde acompanhou a turnê internacional da peça de teatro de Victor García produzida por Ruth Escobar, dando origem ao longa documental Jouez Encore, Payez Encore (“Interprete Mais, Pague Mais”). Por tratar de forma crua o turbulento processo de criação da peça, concentrando-se nos bastidores de sua produção, Tonacci enfrentou resistências para a exibição do filme, culminando com sua interdição. Apenas na década de noventa, o longa, remontado (sua duração foi reduzida de 120 para 70 minutos), pôde voltar a ser exibido, mas permanece inédito comercialmente.
Em seguida, uma longa pesquisa sobre a questão do olhar desembocou no contato com a cultura indígena, praticamente “ameaçada de extinção”, num Brasil desenvolvimentista em que os índios eram vistos, pelo governo militar, como “entrave ao progresso brasileiro”. Numa cultura ainda não contaminada com o aparato tecnológico do audiovisual, o olhar indígena ainda poderia ter um frescor, um senso de novidade? A pesquisa propiciou um contato que gerou o longa documental “Conversas no Maranhão”, em que, se os índios ainda não tinham o controle dos equipamentos de cinema, eles poderiam ter voz para narrar suas adversidades e contar sua história desde tempos imemoriais. A poesia e a linguagem do “ter voz” rapidamente foram combinadas com a urgência da questão política, em especial da demarcação das terras indígenas. Política, poesia e linguagem.
A questão indígena prosseguiu com a série “Os Arara”. Originalmente, produzida em três partes, apenas as duas primeiras foram exibidas na TV Bandeirantes, sendo que a terceira, em exibição na Mostra, nunca foi completamente finalizada, e permanece inédita. Na série, Tonacci acompanha o drama da nação Arara, não-contactada (isto é, sem contato com a “civilização”), que teve suas terras partidas ao meio com a construção da Transamazônica. Em um constante crescendo, de forma asfixiante, Tonacci vai desvendando os interesses em torno da construção da rodovia e tenta um inédito contato com os índios hostis, mediado por um sertanista da FUNAI.
Após a realização de Os Arara e vendo fracassadas suas tentativas de dirigir mais um longa, restou a Tonacci a realização de institucionais para que pudesse continuar na ativa. Por trás do academicismo dos projetos de encomenda, o diretor exercita a linguagem do audiovisual por meio de uma combinação de ritmos, imagens e sons de forma singular. Dentre estes, estão em exibição na Mostra, “Brasil Bienal Século XX”, “Theatro Mvnicipal de São Paulo” e “Biblioteca Nacional”.
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Programação
SESSÃO TONACCI 1 (121´)
Casa França-Brasil: Terça-feira, dia 07, às 19h
Casa França-Brasil: Sexta-feira, dia 10, às 15h
Olho por olho
SP, 1966, 20 min, 16mm
Um grupo de amigos de classe média rodando de carro pela cidade de São Paulo reage ao sentimento de impotência e frustração que lhes invade a vida.
Direção, Roteiro, Fotografia e Câmera: Andrea Tonacci. Montagem: Rogério Sganzerla. Elenco: Daniele Gaudin, Fábio Sigolo e Francisco Arruda.
O Cego
MG, 2005, 12 min, Mini-DV/DVD
O cego que atira. O cego que filma. Ambos gracejam da nossa cegueira. O filme é sobre uma quadrilha de ladrões e o cenário é BH dos anos 70. Perseguir a posse, fazer fortuna para se apropriar do destino. Metáfora atual desses nossos tristes tempos. Mas não se enganem, o diretor enxerga além das câmeras e principalmente a si mesmo. Como Tirésias - O vidente.
Direção, Roteiro e Arte: Beatriz Goulart. Produção: Alexandre Pimenta. Fotografia e Câmera: Sávio Leite. Som: Daniela Renno. Edição: Beatriz Goulart e Sávio Leite. Elenco: Andrea Tonacci e atores do filme “Bang Bang”. Produtora: Pimenta Filmes, Leite Filmes e Bico de Pena.
Trailler Bang Bang
SP, 1970, 4 min, 35mm
Bang Bang
SP, 1970, 85 min, 35mm
O ator de um filme em realização vive sem distinção a sua realidade pessoal e a ficção de seu personagem. Como objeto involuntário do acaso e da circunstância busca um sentido e uma saída daquela situação enquanto é perseguido por bandidos, um mágico, uma fantasia amorosa, um bêbado, sua auto imagem.... A comicidade, os motivos da perseguição, as situações, os personagens, a cenografia, os diálogos e a trilha sonora, que utiliza temas conhecidos de conhecidos filmes americanos, remetem a símbolos, metáforas e à recusa da possível lógica narrativa, no sentido de permitir ao espectador uma sensação análoga à do personagem central, induzindo-o à necessidade de pensar um sentido enquanto perdido e conduzido pela expectativa sustentada, e pelo anticlímax intencionalmente recorrente.
Direção, Roteiro e Produção: Andrea Tonacci. Fotografia e Câmera: Tiago Veloso. Edição: Roman Stulbach. Elenco: Paulo César Pereio, Abrão Farc, Ezequias Marques, José Aurélio Vieira e Jura Otero.
SESSÃO TONACCI 2 (106´)
Casa França-Brasil: Quarta-feira, dia 08, às 19h
Casa França-Brasil: Sábado, dia 11, às 15h
Para Ver TV Tem que Ficar Ligado
SP, SEM ANO, 6 min, Mini-DV/DVD
As relações entre TV e sociedade segundo dois pontos de vista: o primeiro, de um professor; o segundo, de dois rappers da periferia de São Paulo.
Direção e Fotografia: Andrea Tonacci. Edição: Cristina Amaral.
Comerciais de TV para a Bienal Brasil Século XX
SP, 1992, 1min30seg, Betacam/DVD
Três obras publicitárias (chamadas) realizadas para a Bienal de São Paulo de 1992.
Direção: Andrea Tonacci. Fotografia: Mark Perlman. Edição: Cristina Amaral.
Blá Blá Blá
SP, 1968, 28 min, 35mm
O segurança do poder autoritário em crise leva o homem que o manipula à sua crise pessoal. A derrota é total e absoluta. Um ditador, num momento de sublevação nacional, confrontado na rua e no campo por revolta e guerrilha, na busca de uma paz ilusória, faz um longo pronunciamento pela televisão. Mas a realidade se impõe à sua ficção e o controle escapa-lhe das mãos, sobrando-lhe a patética confissão, e sair do ar.
Direção, Roteiro e Câmera: Andrea Tonacci. Fotografia e Câmera: João Carlos Horta. Edição e Edição de Som: Geraldo Veloso. Elenco: Paulo Gracindo, Nelson Xavier e Irma Alvarez.
Jouez Encore, Payez Encore (Interprete Mais, Pague Mais)
SP, 1975-1995, 70 min, 16mm
O filme cobre os bastidores da produção da peça de teatro produzida por Ruth Escobar, tendo sua estréia no Irã. A partir de uma divergência do diretor Victor García e da produtora Ruth Escobar sobre a construção de determinada máquina a ser utilizada na realização da peça, os conflitos em torno da equipe começam a ameaçar a realização do espetáculo.
Direção e Produção : Andrea Tonacci. Fotografia e Câmera : Andrea Tonacci, Regina Water e Farrouh Maijdi. Edição : Roman Stulbach e Cristina Amaral. Elenco : Ruth Escobar, Victor Garcia, Sergio Britto, Antonio Pitanga e Carlos Augusto Strazzer.
SESSÃO TONACCI 3 (120´)
Casa França-Brasil: Quinta-feira, dia 09, às 19h
Casa França-Brasil: Domingo, dia 12, às 15h
Conversas no Maranhão
SP, 1977, 120 min, 16mm
Uma visão dentro dos mecanismos de afirmação de identidade de uma nação indígena. Durante a demarcação oficial de suas terra pela Fundação Nacional do Índio, os Canela Apãniekra – Timbira orientais – decidem interromper o trabalho dos topógrafos e enviar suas reivindicações para Brasília em forma de carta. Filme e gravação. Assim eles expressam sua insatisfação com os limites territoriais impostos pela Funai.
Este filme, primeiro de uma série produzida entre 1977 e 1983, abordando o contato entre duas culturas e suas conseqüências, foi realizado com a participação e orientação dos mais velhos do Conselho da aldeia, e pretende ser um documento oficial da nação Canela junto ao estado brasileiro. A história do grupo – o massacre, a dispersão dos sobreviventes e seu reencontro, os limites imemoriais do território, é narrada por imagens envolvidas com a vida/ritual cotidiano.
Direção, Produção, Fotografia e Câmera: Andrea Tonacci. Som: Walter Luis Rogério. Edição: Bruno de André.
SESSÃO TONACCI 4 (120´)
Casa França-Brasil: Terça-feira, dia 07, às 15h
Casa França-Brasil: Sexta-feira, dia 10, às 19h
Detonacci
MG, 2004, 12 min, Mini-DV/DVD
Detonacci é um documentário sobre lembranças e sobre o esquecimento. Uma homenagem a “Bang Bang” de Andrea Tonacci. Um grande filme de época. Época sem data. Época em que a invenção era valor primeiro. Detonacci para Tonacci.
Direção, Roteiro e Edição: Patrícia Moran.
Um olhar
SP, 23 min
O pesquisador Ismail Xavier conversa com Andrea Tonacci sobre alguns aspectos de sua obra.
Direção e Produção: Joel Yamaji e Neco Pagliuso. Fotografia: Robson Azevedo. Som: Luiz Adelmo. Edição: Neco Pagliuso.
Os Arara - Parte I
SP, 1982, 60 min, Betacam/DVD
Série de TV em três episódios. A construção da Transamazônica leva ao conflito entre as autoridades locais e a tribo indígena dos araras, que vêem suas terras, em que habitam desde tempos imemoriais, serem partidas ao meio com a construção da rodovia. A equipe de filmagens chega ao Pará para tentar um primeiro contato com a tribo Arara, não-contactada (isto é, sem contato com o homem branco).
Direção e Fotografia Andrea Tonacci. Edição: Juracir do Amaral Jr.
Biblioteca Nacional
SP, 1997, 22 min, Betacam/DVD
Um olhar sobre a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e a importância da leitura na formação do indivíduo. Realizado para o Ministério da Cultura.
Direção: Andrea Tonacci. Fotografia: Mário Carneiro. Edição: Cristina Amaral.
SESSÃO TONACCI 5 (115´)
Casa França-Brasil: Quarta-feira, dia 08, às 15h
Casa França-Brasil: Sábado, dia 11, às 19h
Os Arara - Parte II
SP, 1982, 50 min, Betacam/DVD
Série de TV em três episódios. A equipe chega ao Km 120 da rodovia, onde um posto da FUNAI acaba de ser vítima de um ataque da tribo dos Araras. Um mediador da FUNAI que ocupa o posto explica os motivos desse ataque e desvela os interesses por trás da construção da rodovia.
Direção e Fotografia:Andrea Tonacci. Edição: Juracir do Amaral Jr.
Bienal Brasil século XX
SP, 1992, 65 min, Betacam/DVD
Um olhar sobre a evolução das artes plásticas brasileiras durante o Século XX. Realizado para a Fundação Bienal de São Paulo.
Direção: Andrea Tonacci. Fotografia: Mark Perlman. Edição: Cristina Amaral.
SESSÃO TONACCI 6 (110´)
Casa França-Brasil: Quinta-feira, dia 09, às 15h
Casa França-Brasil: Domingo, dia 12, às 17h
Os Arara - Parte III
SP, 2005, 50 min, Betacam/DVD
Série de TV em três episódios. A equipe de filmagem registra o primeiro contato da tribo dos araras com o homem branco. As imagens apresentam o material gravado apenas ordenado, ainda não finalizado.
Direção e Fotografia: Andrea Tonacci.
Theatro Mvnicipal de São Paulo
SP, 1997, 60 min, Betacam/DVD
Um olhar sobre o Theatro Mvnicipal de São Paulo. Realizado para o Ministério da Cultura.
Direção: Andrea Tonacci. Fotografia: Mário Carneiro. Edição: Cristina Amaral
Confira o restante da programação da MFL 2006 AQUI (a partir de 01-02).
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